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A loja era escura, atulhada das cousas velhas, tortas, rotas, enxovalladas, enferrujadas que de ordinario se acham em taes casas, tudo naquella meia desordem propria do negocio. Essa mistura, posto que banal, era interessante. Panellas sem tampa, tampas sem panella, botões, sapatos, fechaduras, uma saia preta, chapéos de palha e de pello, caixilhos, binoculos, meias casacas, um florete, um cão empalhado, um par de chinclas, luvas, vasos sem nome, dragonas, uma bolsa de velludo, dous cabides, um bodoque, um, thermometro, cadeiras, um retrato lithographado pelo finado Sisson, um gamão, duas mascaras de arame para o carnaval que ha de vir, tudo isso e o mais que não vi ou não me ficou de memoria, enchia a loja nas immediações da porta, cscostado, pendurado ou exposto em caixas de vidro, igualmente velhas. Lá para dentro, havia outras cousas mais e muitas, e do mesmo aspecto, dominando os objectos grandes, commodas, cadeiras, camas, uns por cima dos outros, perdidos na escuridão.
Ia a sair, quando vi uma gaiola pendurada dal porta. Tão velha como o resto, para ter o mesmo aspecto da desolação geral, faltava-lhe estar vasią. Não estava vasia. Dentro pulava um canario. A côr, a animação e a graça do passarinho davam áquelle amontoado de destroços uma nota de vida e de mocidade. Era o ultimo passageiro de algum naufragio, que alli foi parar integro e alegre como d’antes.