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para o céu, maldiziam de algum de seus actos ; dissera cem vezes que D. Rodrigo era um respeitavel fidalgo. Mas naquelle momento elle lhe deu no coração todos os opithetos que nunca ouvira ninguem applicar-lhe sem interromper com um « Não ha tal! » Chegando, no meio do tumulto desses pensamentos, é porta da sua casa, que era no extremo da aldeia, introduziu precipitadamente na fechadura a chave que já trazia na mão, abriu, entrou, fechou de novo cuidadosamente e pressuroso de se achar em companhia segura : « Perpetua! Perpetua! » gritou, dirigindo-se para a sala, onde esta devia estar pondo a mesa para a ceia. Perpetua, como se vê, era a criada de D. Abbondio; criada e affeiçoada, que sabia obedecer e mandar, conforme a occasião, supportar a proposito as rabugices do amo e seus caprichos, como tambem fazel-o supportar as suas, que se tornavam dia a dia mais frequentes, depois que ella passara a edade canonica dos quarenta sem casar, porque, segundo dizia, recusava todos os partidos que se lhe apresentavam, ou porque, no dizer de suas amigas, nunca havia achado um cachorro que a quizesse.
« Já ahi vou » respondeu ella, pondo sobre a mesa no lugar do costume a garrafa de vinho favorito de D. Abbondio e approximando-se lentamente; não tinha, porém, transposto ainda a porta da sala quando elle alli penetrou com um passo tão incerto, com o olhar tão perturbado, uma cara tão descomposta que não seriam precisos os olhos perspicazes de Perpetua para comprehender que se tinha passado alguma cousa de muito extraordinario.
— Misericordia! que lhe aconteceu, meu querido patrão?
— Nada, nada, respondeu D. Abbondio, deixan-