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OS MAIAS

Uma sombra passou no rosto de Carlos. N’estas palavras, ditas de leve ácerca do bordado, elle sentia uma desanimadora allusão ao seu amor, — esse amor que lhe fôra enchendo o coração á maneira que a lã cobria aquella talagarça, e que era obra simultanea das mesmas brancas mãos. Queria ella pois conserval-o alli, arrastado como o bordado, sempre acrescentado e sempre incompleto, guardado tambem no cesto da costura, para ser o desafogo da sua solidão?

Disse-lhe então, commovido:

— Não é assim. Ha coisas que só existem quando se completam, e que só então dão a felicidade que se procurava n’ellas.

— É muito complicado isso, murmurou ella, córando. É muito subtil...

— Quer que lh’o diga mais claramente?

N’esse instante Domingos, erguendo o reposteiro, annunciou que estava alli o snr. Damaso...

Maria Eduarda teve um movimento brusco de impaciencia:

— Diga que não recebo!

Fóra, no silencio, sentiram bater a porta. E Carlos ficou inquieto, lembrando-se que o Damaso devia ter visto em baixo, passeando na rua, o seu coupé. Santo Deus! O que elle iria tagarellar agora, com os seus pequeninos rancores, assim humilhado! Quasi lhe pareceu n’esse instante a existencia do Damaso incompativel com a tranquillidade do seu amor.