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OS MAIAS

os seus passos já lhe pareceram soar tristemente como os que se dão n’uma casa abandonada. Ainda errava um vago cheiro de incenso e de phenol. No lustre do corredor havia uma luz só e dormente.

— Já anda aqui um ar de ruina, Villaça.

— Ruinasinha bem confortavel, todavia! murmurou o procurador dando um olhar ás tapeçarias e aos divans, e esfregando as mãos, arrepiado da friagem da noite.

Entraram no escriptorio de Affonso, onde durante um momento se ficaram aquecendo ao lume. O relogio Luiz XV bateu finalmente as nove horas — depois a toada argentina do seu minuete vibrou um instante e morreu. Villaça preparou-se para começar a sua tarefa. Ega declarou que ia para o quarto arranjar tambem a sua papelada, fazer a limpeza final de dois annos de mocidade...

Subiu. E pousára apenas a luz sobre a commoda, quando sentiu ao fundo, no silencio do corredor, um gemido longo, desolado, d’uma tristeza infinita. Um terror arrepiou-lhe os cabellos. Aquillo arrastava-se, gemia no escuro, para o lado dos aposentos d’Affonso da Maia. Por fim, reflectindo que toda a casa estava acordada, cheia de criados e de luzes, Ega ousou dar alguns passos no corredor, com o castiçal na mão tremula.

Era o gato! Era o reverendo Bonifacio, que, diante do quarto d’Affonso, arranhando a porta fechada, miava doloridamente. Ega escorraçou-o, furioso.