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OS MAIAS
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principio trabalhára... Em Londres tinha procurado dar lições de piano... Tudo falhára, dois dias vivera sem lume, de peixe salgado, vendo Rosa com fome! A pobre criança com fome! com fome! Ah, elle não podia perceber o que isto era!... Quasi fôra por caridade que as tinham repatriado para Paris... E ahi conhecera Castro Gomes. Era horrivel, mas que havia d’ella fazer! Estava perdida...

Lentamente escorregára do sofá, cahira aos pés de Carlos. E elle permanecia immovel, mudo, com o coração rasgado por angustias differentes: era uma compaixão tremula por todas aquellas miserias soffridas, dôr de mãi, trabalho procurado, fome, que lh’a tornavam confusamente mais querida; e era o horror d’esse outro homem, o irlandez, que surgia agora, e que lh’a tornava de repente mais maculada...

Ella continuava fallando de Castro Gomes. Vivera tres annos com elle, honestamente, sem um desvio, sem um pensamento mau. O seu desejo era estar quieta em sua casa. Elle é que a forçava a andar em ceias, em noitadas...

E Carlos não podia ouvir mais, torturado. Repelliu-lhe as mãos, que procuravam as suas. Queria fugir, queria findar!...

— Oh não, não me mandes embora! gritou ella prendendo-se a elle anciosamente. Eu sei que não mereço nada! Sou uma desgraçada... Mas não tive coragem, meu amor! Tu és homem, não comprehendes estas coisas... Olha para mim! porque não