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OS MAIAS
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pintada, pendurada no quarto de vestir, representando um moço moreno, de grandes olhos, com luvas de camurça amarellas e um chicote na mão... De sua mãe não ficara nem um daguerreotypo, nem sequer um contorno a lapis. O avô tinha-lhe dito que era loura. Não sabia mais nada. Não os conhecera; não lhes dormira nos braços; nunca recebera o calor da sua ternura. Pae, mãe, eram para elle como symbolos d’um culto convencional. O papá, a mamã, os seres amados, estavam alli todos — ­no avô.

Baptista trouxera o chá, o charuto do Alencar acabara; — ­e elle continuava na chaise-longue, como amollecido n’estas recordações, e cedendo já, n’um meio adormecimento, á fadiga do longo jantar... E então, pouco a pouco, diante das suas palpebras cerradas, uma visão surgiu, tomou côr, encheu todo o aposento. Sobre o rio, a tarde morria n’uma paz elysia. O peristillo do Hotel Central alargava-se, claro ainda. Um preto grisalho vinha, com uma cadelinha no collo. Uma mulher passava, alta, com uma carnação eburnea, bella como uma Deusa, n’um casaco de velludo branco de Genova. O Craft dizia ao seu lado très-chic. E elle sorria, no encanto que lhe davam estas imagens, tomando o relevo, a linha ondeante, e a coloração de cousas vivas.

Eram tres horas quando se deitou. E apenas adormecera, na escuridão dos cortinados de seda, outra vez um bello dia de inverno morria sem uma aragem, banhado de côr de rosa: o banal peristillo de Hotel alargava-se, claro ainda na tarde; o escudeiro