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HIBRIDEZ
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que outras, cujos cruzamentos são muito difíceis de realizar, produzem híbridos muito fecundos? Porque existe esta diferença tão frequente e tão considerável nos resultados dos cruzamentos recíprocos operados entre duas mesmas espécies? Porque, poder-se-á ainda perguntar, é possível a produção dos híbridos? Dar à espécie a propriedade especial de produzir híbridos, para deter em seguida a sua propagação ulterior por diversos graus de esterilidade, que não estão rigorosamente em relação com a facilidade que têm os pais em se cruzarem, parece uma estranha convenção.

Por outro lado, os factos e as regras que precedem parece-me indicarem claramente que a esterilidade, tanto dos primeiros cruzamentos como dos híbridos, é simplesmente uma consequência dependente de diferenças desconhecidas que afectam o sistema reprodutor. Estas diferenças são de uma natureza tão particular e tão bem determinada, que, nos cruzamentos recíprocos entre duas espécies, o elemento macho de uma está muitas vezes apto para exercer fàcilmente a sua acção ordinária sobre o elemento fêmea da outra, sem que a inversa possa ter lugar. Um exemplo fará compreender melhor o que eu entendo quando digo que a esterilidade é uma consequências de outras diferenças, e não uma propriedade de que as espécies foram especialmente dotadas. A aptidão que possuem certas plantas para poder ser enxertadas em outras não tem importância alguma para a sua prosperidade no estado de naturcza; ninguém, presumo eu, suporá que ela lhe tenha sido dada como uma propriedade especial, mas admitirão que é uma consequência de certas diferenças nas leis do crescimento das duas plantas. Podemos por vezes compreender que tal árvore não possa enxertar-se em outra, em razão de diferença na rapidez de crescimento, na dureza da madeira, na época do fluxo da seiva, ou na natureza desta, etc.; mas há uma série de casos em que não podemos assinalar uma causa qualquer. Uma grande diversidade no talhe de duas plantas, o facto de uma ser lenhosa e a outra herbácea, de uma ter folhas caducas e a outra persistentes, a própria adaptação a diferentes climas nem sempre impede de as enxertar uma na outra. Dá-se o mesmo na enxertia, que se dá na hibridação; a aptidão é limitada pelas afinidades sistemáticas, porque nunca se puderam enxertar uma na outra árvores pertencentes a famílias absolutamente distintas, enquanto que, por outro lado, se pode ordinàriamente, posto que não invariàvelmente, enxertar umas nas outras espécies vizinhas e variedades da mesma espécie. Mas do mesmo modo que na hibridação, a aptidão para a enxertia não está absolutamente em