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ORIGEM DAS ESPÉCIES

pois, inevitávelmente uma longa peça afilada, sensível, que chamei antena. Esta, desde que lhe tocam, faz vibrar uma certa membrana que se rompe imediatamente; esta ruptura faz mover uma mola que projecta o pólen com a rapidez de uma flecha na direcção do inseeto ao dorso do qual adere pela extremidade viscosa. O pólen da flor masculina (porque, nesta orquídea, os sexos são separados) é assim transportado à flor feminina, onde se encontra em contacto com o estigma, bastante viscoso para quebrar certos fios elásticos; o estigma retém o pólen e é assim fecundado.

Pode perguntar-se como, nestes casos precedentes e numa série de outros, se chegam a explicar todos estes graus de complicação e estes meios tão diversos para obter o mesmo resultado. Pode responder-se, sem dúvida alguma, que, como já o fizemos notar, quando duas formas que diferem entre si em certo grau começam a variar, a sua variabilidade não é idêntica e, por consequência, os resultados obtidos pela selecção natural, ainda que tendem para o mesmo fim geral, não devem também ser idênticos. É preciso lembrar igualmente que todos os organismos muito desenvolvidos sofreram numerosas modificações; ora, como cada conformação modificada tende a transmitir-se por hereditariedade, é raro que uma modificação desapareça completamente sem ter sofrido novas alterações. Daqui resulta que a conformação das diferentes partes de uma espécie, para qualquer uso que estas partes sirvam além disso, representa a soma de numerosas alterações hereditárias que a espécie tem sucessivamente experimentado, para adaptar-se a novos hábitos e a novas condições de existência.

Enfim, ainda que, em muitos casos, seja muito difícil fazer mesmo a menor conjectura sobre as transições sucessivas que trouxeram os órgãos ao estado natural, estou contudo admirado, pensando quanto é mínima a proporção entre as formas vivas e conhecidas e as que são extintas e desconhecidas, de que seja tão raro encontrar um órgão de que se não possam indicar alguns estados de transição. É certamente verdadeiro que se vêem raramente aparecer num indivíduo novos órgãos que parecem ter sido criados com um fim especial; é mesmo o que demonstra o velho axioma de história natural de que se tem exagerado um pouco a significação: Natura non facit saltum. A maior parte dos naturalistas experimentados admitem a ver- dade deste adágio; ou, para empregar as expressões de Milne Edwards, a natureza é pródiga em variedades, mas avara em inovações. Para que haverá, na hipótese das criações, tantas variedades e tão poucas novidades reais? Porque é que todas