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tindo os joelhos que vão quebrar-se n'um passo mais, apalpando com as mãos de esqueleto um lugar onde sentar-se nas trevas... «Frio, noite, silencio, solidão, velhice, que tristes que sois ! » Ao gemido da velha que morre de frio nos tijolos regelados do chão — cuja ultima palavra é ainda « Aldo», elle acorda.

É no escuro. 0 delírio vai-lhe cada vez mais intenso. Elle lembra como n’um sonho um espectro que roçou por elle, vozes que parecião echoar do tumulo — então a agonia se requinta,e elle amaldiçoa-se pelo seu dormir...


Não pudeste lutar uma hora... Como os discípulos do Christo, mal velaste o horto das oliveiras! Bebes emvão o eterno calix das dôres humanas : teu pai eterno é surdo, teu irmão o Espirito Santo perdeu as azas de fogo. O cerebro do poeta é arido como a terra, e o coração dos ricos bôto e insensivel como o céo!...


Naquella febre lembra ir abraçar sua mãi e talvez lhe dê isso ventura. Mas não achou a mãi no sobrado — procura-a ancioso — e lá a topa debaixo da escada. Esse pedaço todo é bello.

Ah! minha mãi é morta? Deos pois me dá tambem que morra emfim? Como! morreste, minha mãi?

(Levanta-se e olha-a.)

— Sim! bem morta! fria como a pedra, inteiriçada como uma espada!

(Ri ás gargalhadas e cahe em convulsões. — Depois de longo silencio.