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publico nem o verá... Mas posso vendê-lo por tres guiuéos! O duque de York prometteu-me sua cadêa de ouro se eu lhe fizesse versos para a amante... Sim — Lady Matliilde e morena, esbelta : esses versos pudérão ter sido feitos para ella; tem dezoito annos — a idade de Jane — Jane ! vou vender teu retrato eseripto por mim, trahir-te os mysterios da belleza, revelados a mim só, confiados á minha lealdade, a meu respeito; vou contar as volupias com que me embriagaste, vender a bella roupagem de amor e poesia que te fizera, para que vão cobrir seios de unfoutra. Esses elogios á santa pureza de tua alma subiráõ como vã fumaça sobre o altar de deosa estranha : e essa mulher a quem terei dado teu rubor de faces, a alvura de tuas mãos, vão idolo que eu adornara com teus eabellos castanhos, e o diadema de ouro cinzelado por meu genio, — essa mulher, que lerá sem pejo a seus amantes, a suas confidentes as estancias escriplas para ti, é uma mulher sem brio, a femea de um cortezão, o que se chama uma cortezã! Não, não te venderei as joias, e os enfeites, oh minha Jane! Singela moça que me amáras por meu amor, e nem sabes o que é um poeta. Não tc orgulhaste de meus louvores, não entendeste meus versos : pois bem! guarda-los-hei!—Um dia talvez..; no céo — fallarás a lingua dos deoses — e me responderás, pobre Jane!...
Que tenho? Nada fiz, e deslalleço! meus olhos, tenho-os turvos... Choraria? a barba es está humida... Sim, ha lagrimas nas estancias a Jane... Chorei inda agora pensando nella — nem o percebera. Ah ! choraste, pobre cobarde? amollecido em contar a tua dôr quando podias escrevê-la, e comprar o pão de tua mãi — eis-te exhausto como a lampada á manhãa, pallido como a lua ao seu poente.
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Frio maldito! Céo de gelo !... Se eu pudesse escrever alguma cousa! Algum bom remoque ao inverno e aos friorentos, (A voz