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Ah! miserável! Mus... éa satyra! tornas-te mao!
(Chora com desanimo.)
Escreve antes sobre essa bruma que ahi te estaca á janella como á de teu pai.
(Pára. Toma uma caixa de rapé na mesa.)
Ei-lo, meu pai! — Eis-vos! Bom e velho marinheiro! Livre capitão de alto-bordo, dormieis á noite vós! e de dia pelejáveis! — não ereis um Pariá intelligente como vosso pobre filho se lez. Vèdes? vêdes esse papel branco? Se não estiver cheio amauhãa, irei preso, meu pai; e não tenho na cabeça uma palavra para ennegrecê-lo, porque tenho fome ! — Vendi, para comer, o diamante que estava aqui, sobre essa caixa, como uma estrella em vossa fronte bella E agora não o tenho mais — e tenho fome. E tenho tambem vosso orgulho, meu pai, que faz que não confesso a mingua. Mas vós que creis velho, e sabieis que é mister dinheiro para viver, e que não o tínheis para herdar-mo, para que me creastes?
(Atira a caixa. — Vai-lhe após, ajoelha-se e chora.)
Ah! perdão! perdão, meu pai! meu velho pai de cabellos brancos! Tantas vezes me beijastes sobre vossos joelhos! Foi minha culpa; mas eu vo-lo asseguro, meu nome não irá á prisão! Eu vo-lo juro, men velho pai! Eia! eia! aqui está opio! Se tenho fome demais... não comerei, beberei. (Arrasa-se em lagrimas sobre a caixa do retrato.) Alguem sóbe pesadamente minha escada de pão. Escondamos esse thesouro.
(Esconde o opio.)
E porque? Então não sou livre? mais livre que nunca? — Catão não escondeu a espada. Fica-te como és, Romano, colha de frente.
(Põe o opio sobre a mesa.)