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Degradação! vergonhoso trabalho!
(Escreve.)
É certo que essa moça nunca me amará. — E não posso eu deixar de pensar nisso?
(Longo silencio.)
Pouco orgulho tenho em lembra-la ainda.— Mas, digão-me : de que terei orgulho? Não tenho lugar nenhum em classe alguma. — É certo que a soberba nativa é que me aviventa. Ella me brada sempre aos ouvidos que não dobre nem tenha visos desgraçados. — E para que se finge a ventura quando ella é morta? Creio que para mulheres. Representamos todos ante ellas.— Pobres creaturas! Sonhão-te um solio, ó publicidade! vil publicidade! tu o pelourinho onde o profano que passa nos esbofetêa! — As mulheres amão aquelle que se não curva ante ninguém. E, pelo céo! tem razão! — Ao menos aquella que tem olhos sobre mim me não verá abaixar a cabeça. — Oh! se ella me amára...
(Entrega-se a longo scismar — de que sáe violento.)
Escreve pois, desgraçado, acorda tua vontade! —-Porque fraquêa-te ? Não havê-lo podido arrojar ainda, esse espirito rebelde que ella esporêa e que estaca? Humilhação nova para mim! Té aqui eu a vira despear-se ante o Senhor; até hoje era-lhe mister o bridão, esta noite é o acicate. — Ah! ah! immortal! Ah! ah! o duro senhor do corpo! Espirito soberbo, engéla-te por ventura esse miserável nevoeiro que penetra no quarto destruido? basta-te, orgulhoso, um pouco de vapor frio para vencer-te? —
(Lança sobre os hombros a coberta do leito.)
Que espessa nevoa! Estende-se fóra de minha janella cotno uma cortina branca — ou um sudário. — Pendia assim da janella de meu pai na noite de sua morte!
(O relógio dá tres quartos.)