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bom! saudar e apertar mãos alheias —- toda essa comedia representei: começo outra a sós eomigo. Preciso agora que minha vontade seja valente assaz, porque me empolgue a alma, e a leve do eadaver resurgido de meus heróes evocados, ao phantasma daquelles que invento ! E ante Chatterton doentio, ante Chatterton que tem frio e fome, minha vontade assente um outro Chatterton a esmero ornado pelo prazer do publico, e que esse desereva o outro; o trovador pelo mendigo. Eis duas poesias possiveis, nem mais longe que isso! Acordar - lhes sorriso ou piedade — fazer brincar miseráveis bonecos, ou sê-lo mesmo, e fazer trafico desse arremedo! Abrir o coração por expô-lo á venda num balcão! Se avermelhão ehagas, melhor! mais lhe sobe o preço : quanto mais mutilado, mais lhe pagão!

(Ergue-se.)

Ergue-te, creatura de Deos feita á sua imagem! e admira-te ainda nessa eondição!

(Ri e assenta-se. Um velho relogio sôa meia hora.)

Não! não!

A hora adverte : senta-te, trabalha, desgraçado!

Perdes o tempo imaginando; não ha scismu por idear senão que és um pobre. — Ouves-lo bem? um pobre!

Cada minuto de recolhimento é um roubo que faço, é uru minuto esteril.— Que importa a idéa, grande Deos! o que vai é a palavra. Ha tal palavra que póde subir até um shilling : o pensamento não corre na praea.

Oh! além! além! desanimo gelado, eu t’o peço.

Desdem de mim proprio, não me acimes á perdição! Volta- te, volta-te! pois agora meu nome, minha alcova — tudo é sabido; e se amanhãa esse livro não fòr eomprado, estarei perdido — perdido! — e sem esperança! Preso, julgado, condemnado, e lançado na masmorra!