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Que mais piedosa te he, quando mais crua.
  Sendo tu tão cruel, (tão cego es!)
Queres achar piedade? Como queres
Que te creião teu mal, se o meu não crês?
  Qu'eu viva com pezar, tu com prazeres,
Não quer o justo Ceo. Ou ambos tristes,
Ou ledos ambos, si: mais não esperes.
  Selvas, que n'outro tempo nos cobristes
Com frescas sombras lá do ardor de cima,
Dizei, se a Corydon dizer ouvistes:
  Primeiro ha de tornar o brando Lima
As ágoas de crystal á fonte clara,
Que no meu peito novo amor s'imprima.
  Primeiro qu'eu te deixe, Phyllis chara,
Me ha de deixar a mi a propria vida.
Mas quem, por não deixar-te, a não deixára!
  Pois tu, Phyllis, ma dás, eu offrecida
A tenho a teu querer; tu della ordena
Como, doce amor meu, fores servida.
  Por ti me será branda a dura pena;
Por ti suave a dor, leve o tormento,
A que m'inclina o fado, ou me condena.
  Ah falso Corydon! teu pensamento
Era enganar-me: dada a fé me tinhas;
E a fé co'as palavras leva o vento.
  Mas (ai triste de mi!) tambem as minhas
O vento vai levando. O sol he pôsto.
Porque, ligeira luz, te não detinhas,
  Em quanto em meu queixume achava gôsto?{