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SONETOS.
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CXXVIII.

Huma admiravel herva se conhece,
Que vai ao sol seguindo de hora em hora,
Logo que elle do Euphrates se vê fóra,
E quando está mais alto, então florece.

Mas quando ao Oceano o carro dece,
Toda a sua belleza perde Flora,
Porque ella se emmurchece e se descora:
Tanto co'a luz ausente se entristece!

Meu sol, quando alegrais esta alma vossa,
Mostrando-lhe esse rosto que dá vida,
Cria flores em seu contentamento.

Mas logo, em não vos vendo, entristecida
Se murcha e se consume em grão tormento:
Nem ha quem vossa ausencia soffrer possa.



CXXIX.

Crescei, desejo meu, pois que a Ventura
Ja vos tẽe nos seus braços levantado;
Que a bella causa de que sois gerado
O mais ditoso fim vos assegura.

Se aspirais por ousado a tanta altura,
Não vos espante haver ao sol chegado;
Porque he de aguia Real vosso cuidado,
Que quanto mais o soffre, mais se apura.

Ánimo, coração; que o pensamento
Te póde inda fazer mais glorioso,
Sem que respeite a teu merecimento.

Que cresças inda mais he ja forçoso;
Porque se foi de ousado o teu intento,
Agora de atrevido he venturoso.