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SONETOS.
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CXXIV.

Se com desprezos, Nympha, te parece
Que podes desviar do seu cuidado
Hum coração constante, que se offrece
A ter por gloria o ser atormentado.

Deixa a tua porfia, e reconhece
Que mal sabes de amor desenganado;
Pois não sentes, nem vês que em teu mal crece,
Crescendo em mi de ti mais desamado.

O esquivo desamor, com que me tratas,
Converte em piedade, se não queres
Que cresça o meu querer, e o teu desgosto.

Vencer-me com cruezas nunca esperes:
Bem me podes matar, e bem me matas;
Mas sempre ha de viver meu presupposto.



CXXV.

Senhora minha, se eu de vós ausente
Me defendêra de hum penar severo,
Suspeito que offendêra o que vos quero,
Esquecido do bem de estar presente.

Traz este, logo sinto outro accidente,
E he ver que se da vida desespero,
Perco a gloria que vendo-vos espero;
E assi estou em meus males differente.

E nesta differença meus sentidos
Combatem com tão aspera porfia,
Que julgo este meu mal por deshumano.

Entre si sempre os vejo divididos;
E se acaso concordão algum dia,
He só conjuração para meu dano.