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tavel de direito natural, e o povo indigno, que assassina heroes, jamais se confundirão.
Eu, que invejo, com profundo sentimento, estes quatro apóstolos do dever, morreria de nojo, por torpeza, achar-me entre essa horda inqualificavel de assassinos.
Sim! Milhões de homens livres, nascidos como feras ou como anjos, nas fúlgidas areias da Africa, roubados, escravisados, azorragados, mutilados, arrastados neste país classico da sagrada liberdade, assassinados impunemente, sem direitos, sem familia, sem pátria, sem religião, vendidos como bestas, espoliados em seu trabalho, transformados em maquinas, condenados á luta de todas as horas e de todos os dias, de todos os momentos, em proveito de especuladores cínicos, de ladrões impudicos, de salteadores sem nome; que tudo isso sofreram e sofrem, em face de uma sociedade opulenta, do mais sabio dos monarcas, á luz divina da santa religião católica, apostolica, romana, diante do mais generoso e do mais interessado dos povos; que recebiam uma carabina envolvida em uma carta de alforria, com a obrigação de se fazerem matar á fome, á sêde e á bala nos esteiros paraguáios e que nos leitos dos hospitais morriam, volvendo os olhos ao território brasileiro, os que, nos campos de batalha, caíam, saudando risonhos o glorioso pavilhão da terra de seus filhos; estas vítimas que, com seu sangue, com seu trabalho, com sua jactura, com sua propria miséria, constituiram a grandeza desta nação, jamais encontraram quem, dirigindo um movimento espontaneo, desinteressado, supremo, lhes quebrasse os grilhões do cativeiro!...