Página:O matuto - chronica pernambucana (1878).djvu/203

Esta página foi revisada, mas ainda precisa ser validada

Ao chegar, talvez por fugir de ser convidado a cantar, se collocára por traz de umas esteiras, que tinham sido postas de pé em um dos cantos do casebre. Foi d'ahi que tudo viu e ouviu sem ser visto, occulto pela concurrencia.

Lourenço, si bem o disse melhor fez. Logo que se lhe offereceu occasião, cahiu no meio da roda. Fez o seu sapateado, deu meia duzia de castanholas, atirou uma embigada na rapariga que lhe ficava mais perto, e foi collocar-se ao pé do violeiro, fronteiro á Bernardina que ainda estava deliciando os sambistas com suas graciosas vozes.

Quando Bernardina conheceu que Lourenço tinha ido collocar-se alli para alternar com ella as cantigas, empallideceu, mas sorriu. O desafio lhe era agradavel, posto que fosse mais forte do que ella o seu contendor. De seu natural vaidosa e leviana, nunca recusou demonstrações de apreço a Lourenço, embora tivesse o coração quasi todo occupado pela imagem de Saturnino.

Lourenço cantou este verso:

Boca de cravo da India,
Dentes de marfim dourado,
Quando meus olhos te viram,
Meu corpo fez um peccado.