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Aluizio Azevedo.

Vestia, como de costume, um palitó de lustrina preta já bastante usado, calças apertadas nos joelhos, mas tão largas na bainha que lhe enguliam os pezinhos seccos e ligeiros. Não trazia gravata, nem collete, sim uma camisa de chita nova e ao pescoço, resguardando o collarinho, um lenço alvo e perfumado; á bocca um enorme charuto de dois vintens e na mão um grosso porrete de Petropolis, que nunca socegava, tantas voltas lhe dava elle a um tempo por entre os dedos magros e nervosos.

Era official de torneiro, official perito e vadio; ganhava uma semana para gastar num dia; às vezes porem os dados ou a roleta multiplicavam-lhe o dinheiro, e então elle fazia como naquelles ultimos tres mezes; afogava-se nunia boa pandega com a Rita Babiana. A Rita ou outra «O que não faltava por ali eram saias para ajudar um homem a cuspir o cobre na bocca do diabo!» Nascêra no Rio de Janeiro, na Côrte; militára dos doze aos vinte annos em diversas maltas de capoeiras; chegára a decidir eleições nos tempos do voto indirecto. Deixou nome em varias freguezias e mereceu abraços, presentes e palavras de gratidão de alguns importantes chefes de partido. Chamava a isso a sua época de paixão politica; mas depois desgostou-se com o systhema de governo e renunciou ás lutas eleitoraes, pois não conseguira nunca o logar de continuo numa repartição publica — o seu idéal! — Setenta mil reis mensaes; trabalho das nove ás tres.

Aquella amigação com a Rita Bahiana era uma coisa muito complicada e vinha de longe; vinha do tempo em que ella ainda estava chegadinha de fresco da Bahia, em compa-