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O Cortiço.
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III

Eram cinco horas da manhã e o cortiço acordava, abrindo, não os olhos, mas a sua infinidade de portas e janellas alinhadas.

Um acordar alegre e farto de quem dormio de uma assentada sete horas de chumbo. Como que se sentia ainda na indolencia da neblina as derradeiras notas da ultima guitarra da noite antecedente, dissolvendo-se á luz loira e tenra da aurora, que nem um suspiro de saudade perdido em terra alheia.

A roupa lavada, que ficara de vespera nos coradoiros, humedecia o ar e punha-lhe um fartum acre de sabão ordinario. As pedras do chão, esbranquiçadas no logar da lavagem e em alguns pontos azuladas pelo anil, mostravam uma pallidez grisalha e triste, feita de accumulações de espumas seccas.

Entretanto, das portas surgiam cabeças congestionadas de somno; ouviam-se amplos bocejos, fortes como o marulhar das ondas; pigarreava-se grosso por toda a parte; começavam as chicaras a tilintar; o cheiro quente do café aquecia, suplantando todos os outros; trocavam-se de janella para