Página:O choque das raças.pdf/18

Esta página foi revisada, mas ainda precisa ser validada
14
MONTEIRO LOBATO

tinha grande originalidade, pois todos os meus conhecidos se julgavam da mesma fórma.

Eu vivia do meu trabalho, recebendo delle, não o producto, mas uma pequena quota, o necessario para pagar o quarto onde morava, a pensão onde comia e a roupa que vestia. Quem propriamente gosavam do meu trabalho eram os socios da firma Sá, Pato & Cia, gordos e solidos negociantes que me enterneciam a alma nas epocas de balanço, ao concederem-me a pequena gratificação constituidora do meu lucro. Com elles trabalhei varios annos, conseguindo reunir o modesto peculio que transformei em marcos e, com grande dor d'alma, vi reduzirem-se a zero absoluto, apesar da theoria de que tudo é relativo.

Continuei no trabalho por mais quatro annos, d'ahi por deante já curado de jogatinas e megalomanias.

Mas, todos nós possuimos um ideal na vida. Meu amigo corretor sonha dirigir a carteira cambial de um banco. Aquelle pobre que alli passa, tocando um realejo que herdou do pae e ao qual faltam tres notas, sonha com um realejo novo a que não falte nota nenhuma. Eu sonhava... com um automovel. Meu Deus ! As noites que passei pensando nisso, vendo-me ao volante, de olhar firme para a frente, fazendo, a berros de klaxon, disparar do meu caminho os pobres e assustadiços pedestres ! Como tal sonho me enchia a imaginação !