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era a seguinte: o fogo disem devora tudo! — tatta, pahá oçapi opãin rupi!
Um outro exemplo: — quando entre nós se objecta a um homem que elle se expôe a uma morte provavel, e que este homem quer indicar a sua resignação, nós povos aryanos, disemos: eu não estou no mundo para semente. A phrase correspondente no tupi, para este caso, nós a encontramos ainda na primeira lenda, onde o jabuti, ameaçado pelo rasto de ser uma segunda vez enterrado pela anta, lhe responde; — eu não estou neste mundo para ser pedra — Ixé intimahã xa ikó ce ára uirpe ita ãrãma.
Pelo lado dos anexins populares, dessas maximas que constituem por assim dizer toda a philosophia pratica de um povo, impossivel seria conhecel-os no tupi a não serem os textos originaes de suas lendas. Foi por meio de uma dellas que eu fiquei sabendo que muitos dos dictados populares do Brazil nos vierão do Tupi.
Entre outros, citarei o seguinte, que é muito vulgar em todo o Brazil: quando se quer dizer que é muito difficil illudir e enganar ao homem experiente, diz-se no interior: macaco velho não mette a mão na cumbuca: é um anexim tupi; eu o encontrei até rimado, e diz assim: macáca tuiué inti omumdéo i pó cuiambúca opé, anexim que é, verbum ad verbum, o mesmo de que nos servimos em portuguez.
Quanto ao estylo das lendas, ha ahi alguma cousa de tão singello e infantil que é impossivel lel-as sem reconhecer que ha nisso verdadeira poesia selvagem.