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nea de um povo antes que qualquer genero de convenção, interesse ou espirito de seita e partido, houvesse modificado as producções espontaneas do espirito humano.
E si é verdadeira a theoria de que o homem pensou da mesma fórma, qualquer que fosse a sua raça, emquanto esteve no periodo de barbarismo que termina-se com a fundição dos primeiros metaes, a historia do pensamento da raça americana, n’esse periodo, não è só a de uma porção da humanidade; é a de toda a humanidade, em periodo identico.[1]
Não pode haver a menor duvida para o brasileiro comtemporaneo de que estas lendas formão o fundo das tradições dos indigenas, visto que ellas constituem o actual fundo dos contos populares do interior; o povo não pode ter outras tradições que não sejão as que recebeo da Europa, as que lhe vierão da Africa, ou as que lhes vierão dos indigenas. Ora as lendas em questão não são africanas nem europeas pois os animaes que nellas figurão são animaes sul americanos, assim como americanas são as arvores, as circumstancias, os habitos e costumes que ahi se descrevem, com tão admiravel singelesa e propriedade.
- ↑ Para evitar qualquer duvida no futuro, devo dizer que aqui mesmo no Rio de Janeiro ha diversas pessoas que conhecem a lingua. a saber: Sua Magestade o Imperador que conhece o tupí da costa antigo; o Sr. Dr. Baptista Caetano, que conhece o guarany antigo e moderno; o Sr. professor Carlos Frederico Hartt que conhece o tupí antigo, e falla o tupí do Amazonas; o Sr. General Beaurepaire que conhece o tupi da costa; devem haver outros. Existem aqui nos corpos da corte nada menos de 40 a 50 praças que fallam o tupi e, como são indigenas, todos sabem de cór alguma das lendas que figuram n’esta collecção; temos talvez mais de 100, entre marinheiros e soldados, que fallam tupí ou guaraní.