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curso de lingua tupí viva ou nhehengatú
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uma serie dellas, em que o jabuti representava o principal papel; de quando em vez elle repetía em lingua geral algum aphorismo que não podia traduzir em portuguez por fórma tão laconica como a em que elle o fazia na propria lingua. Foi esta a primeira vez que minha attencção foi despertada sobre mythos nacionaes.

As circumstancias desses tempos não eram taes que eu dispuzesse da calma necessaria para estudar esses mythos. Notei no entretanto que entre as taes historias havia um thema singular, o qual consistia em mostrar o jabuti, que aliás é um dos animaes mais fracos de nossa fauna, vencendo aos mais fortes quadrupedes, a custa de astucia e intelligencia.

Apezar de ter notado isso, é muito provavel que taes impressões se tivessem apagado de uma vez no meu espirito, a não ter sido a viagem que fiz á fóz do Amazonas de que acima fallei.

Em dias do mez de setembro do anno de 1874, tendo eu de fiscalisar o serviço de navegação a vapor em ilhas da fóz do Amazonas, parei no Afuá, logar onde se abrigam todos os barcos que navegam para o Amapá e Guyana, e onde havia n’esse dia um consideravel ajuntamento de tripulações.

Ahi ouvi pela segunda vez as lendas do jabuti, e ouvindo-as em logar tão distante do Paraguay, veiu-me pela primeira vez esta idéa: não serão estas lendas fragmentos da velha litteratura tupí, que, como a dos gregos, egypcios e hebraicos, foi muitos annos conservada pela tradição, visto que por outro meio era impossivel, pois não tinham a arte de escrever?