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se eu estivesse aqui nos paroxismos d’Antony, ou tivesse uma toilette veneziana, ou se isto fosse uma abbadia feudal, ou se eu partisse d’aqui para conquistar Jerusalem, diga-me — tinha mais confiança?

— Tudo isso não quer dizer nada.

— Oh minha querida amiga...

— A sua querida amiga, interrompi, nada mais pede que um coração franco e recto. São tudo pois imaginações minhas? Não ha nada que nos separe? Pois bem, vou dizer-lhe uma cousa e juro-lhe que é irremissivel, juro que o digo em toda a frieza do meu juizo, sem exaltação e sem paixão, com o discernimento mais livre, o calculo mais positivo...

— Mas, meu Deus! Diga...

— E esta resolução, acceita-a?

— Uma resolução... E o que envolve ella?

— Envolve a unica cousa possivel, a unica que me fará crer em si, com a mesma fé com que creio em mim. Acceita-a?

— Mas como não hei de acceitar?...

— Pois bem, comecei eu.

E tomando-lhe as mãos, disse-lhe junto da face n’uma voz ardente como um beijo:

— Fujamos ámanhã.

Rytmel empallideceu levemente e retirando de vagar as suas mãos d’entre a pressão das minhas:

— E sabe que é uma cousa irreparavel?

— Sei.

Elle sentara-se, com os olhos sobre o tapete, e eu no emtanto, de pé junto d’elle, com a minha mão pousada sobre o seu hombro, dizia-lhe como no murmurio de um sonho:

— Pensava n’isto ha um mez. Vamos para Napoles. Vamos para onde quizer. Adoro-te... É como uma pessoa que se deixa adormecer. Adoro-te, e quero viver comtigo...

Pousei-lhe a mão sobre a testa, ergui-lhe a cabeça, para ver a resposta dos seus olhos; estavam cerrados de lagrimas.

— Meu Deus! Rytmel, tu choras...

— Não, não, minha querida! estava pensando em minha mãe, que não torno talvez mais a ver... Acabou-se... Amo-te, amo-te... e... Avante!

E tomou-me nos seus braços, ardentemente, como sellando um pacto eterno.