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Deus concede aos grandes culpados: a liberdade de soffrer. Mas elle... O seu nome descoberto! o seu cadaver profanado! o seu segredo trahido!...

E fallando, como n’um sonho, abstractamente:

— Desventurado homem! que fatal destino o encaminhou para mim arremessando-o, de encontro ao meu coração, em que estava a sua morte? Porque não amou outras mulheres que o mereciam mais do que eu? Porque não se deixou amar por Carmen Puebla, que o adorava e que morreu por elle? Que cego, que imprudente, que desgraçado que foi!...

E escondendo a face nas mãos, desatou a chorar n’um pranto convulso e desfeito, em que a vida parecia despedaçar-lhe o seio e jorrar para fóra em borbotões de lagrimas e de soluços.

— Vamos, — disse-lhe eu quando esta crise abrandou, — serenemos um momento, e pensemos no que importa fazer. É então positivo que o conde está morto?

— O conde?... interrogou ella, erguendo-se de subito e enxugando os olhos. Sim, tem rasão, eu ainda lhe não disse tudo... O homem que eu matei não é meu marido.

E, postando-se defronte de mim, fitou-me com um olhar hallucinado, e accrescentou com voz demudada e profunda:

— É o meu amante.

Em seguida ficou immovel, esperando as minhas palavras na postura de um reu que vae escutar a sentença da bôca de um juiz.

A sensação que experimentei ao ouvir essa confissão breve, sêcca, inesperada, foi a da surpreza primeiro, de uma instinctiva repulsão depois. Ergui-me machinalmente e dei alguns passos na casa. A condessa permanecia na mesma posição, n’uma insensibilidade que tanto podia ser a prostração do arrependimento como o cynismo da culpa. Eu estava surprehendido e revoltado. Aquella mimosa e pura estatua, á qual eu levantára quasi um altar no meu coração, assim repentinamente baqueada n’um lamaçal, causava-me horror. Poderia supportal-a criminosa; não podia consideral-a prostituida. Medi-a com um olhar em que senti dardejar o despreso que ella n’esse momento me inspirava, e depois de um silencio repassado de magoa:

— É horrivel isso!

Ella estremeceu, cerrou desfallecidamente os olhos e amparou-se vacillante ao espaldar de uma cadeira.

— Extranha talvez a lastima e o horror que me causa? insisti eu. É natural. Tendo ouvido que em Lisboa, a sociedade vê benevolamente essas quedas como incidentes