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volta do teu caixão. Não farás scismar as noivas que te vissem passar no teu enterro. As mãos alcatroadas de velhos marinheiros te arremessarão ao mar!

Pois bem, minha pobre amiga! que importa? Estás na logica do teu destino, que é a revolta. Viveste longe das estreitas conveniencias humanas, morres em plena liberdade da natureza.

Não verás o teu leito cercado de parentes avidos, de criados indifferentes, de padres que te dêem os santos oleos bocejando, n’um quarto escuro e abafado, entre o cheiro dos remedios: morres diante do ceu, aos emballos do mar, ao cheiro da maresia, entre velhos marinheiros da India, que te choram, sob o sublime ceu, na plena liberdade dos elementos!

Não serás vestida com velhas sedas, não levarás na cabeça antigas corôas funebres, não te cobrirão com galões de ouro falso; irás com o teu penteador branco, como para uma alegria nupcial!

Não te pregarão n’um caixão estreito, nem te apertarão como um fardo; terás o contacto das cousas vivas; as lagrimas do mar correrão sobre os teus cabellos; poderás toucar-te d’algas; os raios do sol poderão ir procurar-te como antigos amantes dos teus olhos, e a tampa do teu esquife será o infinito azul.

Não sentirás em volta de ti no teu enterro cantos em mau latim, o som das campainhas, a voz aguda dos meninos do côro, os commentarios estupidos da multidão, as grosseiras enchadadas do coveiro. Serás lançada á tua cova do mar no meio de um silencio militar, levando por mortalha a bandeira ingleza, ao cantochão infinito dos ventos e das aguas.

Não ficarás para sempre apertada em cinco palmos de terra, sentindo a bôca das raizes pastar o teu seio e a multidão dos vermes entrar no teu corpo como n’uma cidadella vencida. Não! a tua morte será uma perpetua viagem: viverás nas grutas transparentes de luz, guardarás os thesouros mysteriosos, visitarás as cidades de coral que luzem no fundo do mar, amarás o corpo encantado d’algum louro principe, outr’ora pirata normando! Andarás dispersa no elemento, sombra infinita, alma da agua!

Sobre o teu tumulo não virão sentar-se os burguezes, benzer-se os sachristães, cacarejar as gallinhas; sobre a tua azul sepultura errará o vento, melancolico velho que visita os seus mortos.

Não terás um epitaphio metrificado por um poeta elegiaco, e approvado pela camara municipal; serão os reflexos ineffaveis