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Rytmel continuava fallando á condessa.
— Cale-se, cale-se, dizia ella, baixo, e como vencida.
— Não; devo dizer-lh’o: esta palavra «amisade» é falsa. D’aqui a duas horas talvez, estamos perdidos. Ao pé da morte a sinceridade é uma justiça. Digo-lh’o. Amo-a. Não se erga. O vento levará comsigo esta confissão. Amo-a. Se estamos culpados depois d’estas palavras, o mar é um bom tumulo e o mar lava tudo. Amo-a...
— Não diga isso. É um engano; é apenas sympathia. Demais o amor a que nos levaria? ou ao despreso ou á tortura...
Eu ouvia mal. Elles fallavam baixo. A tormenta chegava. O navio gemia lamentavelmente. As cordagens, que o vento quebrava de repente, assobiavam como cobras. Os marinheiros corriam. Sentiam-se a voz do commando, os martellos, os trabalhos na machina. Uma vaga entrou, alagou o convez.
De repente senti um movimento dentro da tenda: a condessa ergueu-se; a sua voz era alta e vibrante:
— Captain Rytmel, pensa em sua honra que vamos morrer?
— Penso, condessa.
— Pois bem, quero dizer-lh’o então: amo-o!
E depois de um momento:
— Oh! amo-o, repetiu ella com uma explosão de paixão. Já que tenho a certeza de que morro pura, quero morrer sincera. Adoro-o.
N’este momento um ruido extranho tomou o navio.
Percebi uma forte dominação de oscillação, uma resistencia contra a vaga. Os movimentos da embarcação já não pareciam inertes. Via-se que ella tinha retomado a sua vitalidade... Então senti o helice... o helice! O navio movia-se. Via-se a onda esmigalhada pela prôa. Caminhavamos! Eu saltei para a abertura que desce á machina.
— Que é? perguntei a um official que subia.
— Um milagre de Pernester!
Todos tinham corrido. Era uma anciedade.
O capitão trepou rapidamente pela escada de ferro polida que do interior da machina sobe ao pavimento do navio.
Estava radiante.
— Imaginem que Pernester...
— Sim, sim, interrompi, mas então?
— Vamos a caminho. Agora sopra, tormenta, sopra! Ámanhã estamos em Malta.
— Bravo, Pernester! bravo! gritavam todos.