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O INFERNO

tu não és o meu Deus! O Deus que adoro, o unico e verdadeiro Deus, é o melhor dos Paes; apezar das minhas culpas, não me trata como inimigo nem como escravo; conhece melhor a minha fraqueza do que eu a sua força; e, até quando me castiga, não esquece que foi elle quem me creou e que eu sou seu filho.

II

O purgatorio
 

É o purgatorio o logar incognito em que os mortos esperam, soffrendo, o perdão das culpas commettidas na terra. Ha ahi o chorar e o padecer; mas não se amaldiçôa Deus: bemdiz-se. Os soffrimentos ahi supportados são salutares porque se comprehende a justiça d'elles; e corrigem porque a esperança não é anniquillada.

Se tal logar existe, de que serve o inferno?

Deixar dizer que a eternidade é que apavora e refrêa o peccador. O peccador não sabe o que seja a eternidade; porque é impossivel absolutamente formar-se uma clara idêa do que seja isso. Se recuamos perante nós um pouco que seja as balisas do tempo, a nossa imaginação e razão se perdem; e cahimos nas prezas das mesmas angustias que sentiriamos, se vissemos a verdadeira eternidade.

Para que o homem se aterre lhe basta imaginar o soffrimento de que é capaz a sua natural sensibilidade,