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das quais nem mesmo se livrava sá Jovina. Parecia enfim que Nenê sentia em si uma exuberância de afeições que ela irrefletidamente ia prodigalizando a torto e a direito, talvez por não poder gastá-la como sonhava, nuns esquisitos de caprichos de que se admirava mais tarde, fazendo-se faceira, trabalhando nuns requintes de toaletes, vivendo num estranho de ilusões e de fantasias onde não se reconhecia, em cujo terreno julgava não ter pisado até aquele momento.

Dominava-a agora uma grande paixão pela música. Sonhava umas harmonias deliciosas de instrumentos bizarros e nunca vistos, tangidos por mãos celestiais, a saturar o ambiente de sonorosidades excitantes, a banhar-lhe o corpo inteiro numas vagas de sensualidades. Era nuns automatismos de alucinada que ela caminhava para o piano, fazendo-lhe vibrar o teclado numas notas merencórias de tristezas sem fim por entre as quais, de momento a momento, destacavam-se nuns rápidos veios auríferos os ritmos alegres de Offenbach. Ela andava assim, a estereotipar na variabilidade das músicas o vasto movediço que lhe ia pela alma adentro; todas essas modalizações bruscas e antinômicas do seu espírito