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III
E nunca ouviste, por ahi, na vida,
Fallar de umas mulheres que a flor d'alma
Prostituem por ouro ? nunca o peito
Abalou-te um rugir ouvindo os cantos
De tanta perdição ? —
Mas talvez viste
Um dia á porta — ao bruxulear da tarde
Cos seios descobertos vir sentar-se
Cum forçado sorrir nos seccos lábios
Do abjecto lupanar á porta infame
Desgrenhada mulher.
E então o nojo
Quiçá do peito teu apoderou-se....
Pois essas vis que a perdição enloda
Em charco apodrecido — e a esse nome
De vendida mulher — de prostituta
Ligaste o nojo e o desprezo — apenas.
Porém se a meretriz visses tu bella
Como os anjos de Deus e á luz das noites
Em estrellado céo, rosea sorrindo
Qual cravo entre rubins vasando orvalho —
A não amal-a e o coração inteiro
Não vasares-lh'o aos pés como áureo vaso
De essência preciosa — ao menos n'alma,
Não doera-te uma fibra, e compassiva
Não te cahira aos lábios uma lagrima
N'um soluçar quebrado ?