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II

Em rico leito, no velludo negro
Embuçado do manto pallideja
De uma sinistra morbidez eivada
A fronte alta do Conde, os olhos negros
Que das olheiras no azular se afundão
Signalão noite perpassada em gozos.
Tem a fronte na mão e mudo pensa.
Sentada ás bordas do macio leito
Uma bella mulher —
                     Inda lhe luta
Das faces na descôr desfeita rosa;
Sorri suave. — Em ondas os cabellos
Correm-lhe negros nos nevados hombros
E no collo de jaspe — a mão mimosa
Pousa na do mancebo — e os olhos nelle. —

Dissereis uma estatua, immovel, bella
Como da Grécia as pétreas creaturas;
Nunca uma Venus de adestrado scopro
Sahiu tão alva assim — oh! nunca um talhe
Em transparentes roupas mal velado,
Nunca tão" lizas desvestidas fôrmas
Tiverão vida assim — e a mente ardida
Do moço Raphael a Fornarina
Com tal vida de cores nunca pôde
Dentre seus sonhos desenhar na tela,
E ao mundo revellar imos segredos
Do seu vivo ideal.
                 Oh! que se a visse
Dir-te-hia o coração — vel-a é amal-a!