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Eu sonharei uns visos de ventura,
E cá dentro do peito a dôr da vida
Também me dormirá ! dorme, meu anjo !
Hei de affagar-te o somno, hei de doural-o
Com hymnos mui sentidos, muito d'alma.
Dorme, ó anjo de amor, teu quedo somno
Aqui no peito meu ! dorme que eu velo !
Cerrem-se tuas palpebras de jaspe !
Em molle resomnar arfe-te o collo!
Que os suspiros que exhalão-se-te nos lábios
Esse cios seios teus tremor suave
Sonhe meu coração, e uma lagrima
D e gozo rolle-me do ardido cérebro
Que a dôr na solidão me tem crestado!
Além a briza as casualinas freme,
Gemedoras suspirão as ramagens
Num languido soar — a lua frouxa
A face te clareia — tudo dorme,
Tudo é silencio em torno ! só eu velo
Só eu — junto de ti. — Dorme, dorme,
Que véla-te o cantor a hora dos sonhos !