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Pousa-me a neve de teu braço em torno
Do collo meu, no meu olhar se fixem
Languidos, mui languidos, bem cheios
De feiticeiro enlouquecer teus olhos !
Que rosas abertas em fresca manhã
Molhadas da noite, de face lasciva —
Que valhão-te o nacar de nympha louça
Que a bocca te aviva ?
E quando na terra sôa Ave Maria,
Que estrella nascendo do céo no azular,
Que nuvem morrendo na vaga sombria
Que valha-te o olhar ?
De Tasso ou de Dante que gloria, que loiros,
Que amores, que sonhos de alheiarem o sizo,
De uns seios de neve que argenteos thesoiros
Que valhão-te um rizo ?
Que sylphides, que anjos fingidos nos sonhos
De uma alma de poeta num fervido ancejo
Que valhão-te um beijo ?
……………
Vem, pois, minha sultana ! a noite é bella !
Corre a lua no céo entre perfumes,
Tudo falia de amores, o ar, as sombras