Página:Novellas extraordinarias.pdf/340

Esta página foi revisada, mas ainda precisa ser validada
332
NOVELLAS EXTRAORDINARIAS

do nosso castello, nas pinturas do enorme salão, nas tapeçarias dos aposentos, nas cinzeladuras das columnas da sala d'armas; porém, mais especialmente, na galeria dos quadros antigos, na physionomia da bibliotheca e, emfim, na natureza muito particular do conteúdo d'essa bibliotheca, ha de sobejo com que justificar essa denominação.

A recordação dos meus primeiros annos está intimamente ligada áquella sala e aos seus volumes, dos quaes não falarei mais. Foi lá que morreu minha mãe. Foi alli que eu nasci (se é que não vivia antes; se é que a alma não tem uma existencia anterior). Mas não discutamos este assumpto. Estou convencido, não procuro convencer. Na minha memoria ha uma reminiscencia de formas aereas, de olhos intellectuaes e expressivos, de vozes harmoniosas e melancolicas; uma reminiscencia que não me quer deixar; uma especie de lembrança semelhante a uma sombra vaga, variavel, indefinida, vacillante. Sombra essencial, da qual não poderei separar-me emquanto no meu cerebro fulgir a luz da razão.

Foi n'aquelle quarto que eu nasci. Emergindo assim das longas trevas, que pareciam ser, mas que não eram o nada, para calir subitamente n'um paiz maravilhoso, n'um palacio phantastico, nos estranhos dominios do pensamento e da erudição monastica, não é para admirar que tenha lançado em torno de mim um olhar assustado e ardente, que tenha consumido a infancia sobre os livros e empregado a juventude em devaneios. Mas o que é singular, (os annos tendo caminhado, e o vigor da vida tendo-me encontrado ainda no solar dos meus antepassados) o que é estranho, é a inercia que me paralysou os orgãos essenciaes da vida; é a inversão completa que se operou no caracter dos meus pensamentos mais ordinarios. As realidades do mundo não me impressionavam