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v. 6, n. 11, p. 01-13 junho 2013
enquanto esse estivesse expirando debaixo do escalpelo, o homem absorveria as características daquele animal: por exemplo, o sangue de um rato faria de um homem um ladrão, o sangue de uma aranha lhe daria o talento para a geometria, o sangue de uma andorinha faria de um homem caseiro um viajante etc. Antes de divulgar a teoria para os sábios de Alexandria, porém, e fazer conferências ao público, o professor Stroibus queria submeter a teoria a mais experimentações. Seu amigo Pítias fez a seguinte proposta:
Metafisicamente, a tua doutrina é um despropósito; mas estou pronto a admitir uma experiência, contanto que seja decisiva. Para isto, meu caro Stroibus, há só um meio. Tu e eu, tanto pelo cultivo da razão como pela rigidez do caráter, somos o que há mais oposto ao vício do furto. Pois bem, se conseguires incutir-nos esse vício, não será preciso mais; se não conseguires nada (e podes crê-lo, porque é um absurdo) recuarás de semelhante doutrina, e tornarás às nossas velhas meditações.[1]
Strobius aceitou a proposta. Machado de Assis então descreve em detalhe a experiência na qual os dois cientistas bebiam sangue de rato. O resultado — sucesso! Stroibus provou sua teoria. Na realidade, Pítias foi o primeiro a dar sinais da realidade do efeito ao reivindicar o crédito por três ideias que ele tinha ouvido do próprio Stroibus. Este último, por sua vez, roubou de Pítias quatro fórmulas e uma teoria dos ventos. "Duro é dizê-lo", escreve Machado, "mas a verdade é que eles deitaram ao Nilo a bagagem metafísica, e dentro de pouco estavam larápios e acabados. Concertavam-se de véspera, e iam aos mantos, aos bronzes, às ânforas de vinho [....], às boas dracmas." Finalmente começaram a furtar livros raros da Biblioteca de Alexandria.
Nesse ponto a história torna-se mais interessante, embora menos interessante do ponto de vista acadêmico, de modo que não há por que terminá-la. De qualquer modo, estamos todos familiarizados com professores que fizeram esse tipo de experiência.
Um terceiro tipo de professor que Machado nos apresenta é Barata, um mestre-escola que ajudou a formar o caráter complicado mas irresistível de Brás Cubas, aquelaFundação Casa de Rui Barbosa – R. São Clemente, 134, Botafogo – 22260-000 – Rio de Janeiro, RJ, Brasil.
- ↑ "Conto alexandrino". [In: ASSIS, Machado de. Histórias sem data. Edição preparada por Marta de Senna. São Paulo: Martins Fontes, p. 107.]