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Machado de Assis em linha, Rio de Janeiro.
v. 6, n. 11, p. 01-13 junho 2013

todas as classes, ecos de toda a vida do Brasil desde o seu início. Desse tesouro brasileiro que se encontra nos livros de Machado de Assis, vamos extrair uma pequena joia para nossa consideração — o professor. Quem, melhor do que nós, pode julgar esse miserável pecador?

Não é possível, numa única ocasião, examinar todos os professores da obra de Machado de Assis, mas podemos examinar alguns. O principal é Rubião, protagonista do romance Quincas Borba, que fechou sua escola para cuidar do amigo doente, o filósofo louco Borba. Rubião era um homem bom, muito bom, muito ingênuo; tinha tanta fé no coração humano que essa mesma bondade e ingenuidade, essa simplicidade confiante resultou numa falha trágica que destruiu seu mestre e o corrompeu completamente.

Machado de Assis tem outro professor que é bom e ingênuo, mas menos trágico: um velho lunático, chamado Dr. Fulgêncio, que tem o nariz sempre enfiado num livro. Esse velho professor decidiu oferecer a dois adolescentes, Caetaninha e Raimundo, um "curso sobre o amor", uma educação longa e gradual que deveria, finalmente, terminar em casamento. Os alunos eram perspicazes: as aulas mal começaram e eles já estavam aos beijos. Não é difícil adivinhar como o curso terminou.[1]

Esse dois são bondosos e simpáticos. Agora olhemos para o outro lado da moeda. Em "Conto alexandrino" há dois professores do tipo ambiciosos, pesquisadores, homens de ciência: seus nomes, Pítias e Stroibus. Era no tempo de Ptolomeu. A ilha de Chipre era a pátria de ambos; mas, como ninguém é profeta em sua própria terra, Chipre não lhes dava o merecido respeito. Um dia Pítias sugeriu que fossem a Alexandria, cidade onde as artes e as ciências eram grandemente honradas. (Machado de Assis não diz explicitamente isso, mas o leitor fica com a impressão de que a Alexandria de Ptolomeu é outro nome para o Rio de Janeiro de Dom Pedro II.) Em Alexandria, a cidade e a corte oferecem aos dois cientistas uma recepção régia. Mas antes de tornar pública qualquer descoberta científica, Stroibus queria realizar algumas experiências. Ele desenvolvera uma teoria de que se um homem bebesse o sangue de um animal
http://machadodeassis.net/revista/numero11/rev_num11_artigo01.asp
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  1. "Ex Cathedra". Histórias sem data. [In: ASSIS, Machado de. Histórias sem data. Edição preparada por Marta de Senna. São Paulo: Martins Fontes, p. 213-225.]