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Machado de Assis em linha, Rio de Janeiro.
v. 6, n. 11, p. 01-13 junho 2013

Era admiravelmente curioso daquele monstro, a mulher norte-americana. Elogiou diversas vezes Harriet Beecher Stowe por seu protesto contra a escravidão. E quando seu amigo mais velho, Salvador de Mendonça, lhe escreveu uma carta de 12 páginas sobre sua noiva, Mary Redman, de Boston — uma mulher que era, sem dúvida, uma mulher norte-americana por excelência, Machado respondeu:

 

Reli a carta, não só porque eram letras tuas, mas também porque dificilmente podia vir melhor retrato de uma jovem americana. Tudo ali é característico e original. Nós amamos e casamos aqui no Brasil, como se ama e casa na Europa; nesse país parece que estas coisas são uma espécie de compromisso entre o romanesco e o patriarcal. Acrescem os dotes intelectuais de Miss Mary Redman [...] Casar assim, e com tal noiva, é simplesmente viver, na mais ampla acepção da palavra. [...] Não há que justificar a pressa. Os melhores amores nascem de um minuto. Deveras, seguiste a boa regra: foste yankee entre yankees."[1]

 

Machado mostrava um interesse simpático por nós, mesmo quando era sarcástico. Sua crônica de 2 de junho de 1878, sobre a inauguração da linha de navegação a vapor ligando o Rio de Janeiro a Nova York, mantém um certo ar zombeteiro, mas termina numa nota doce e amiga.

 

O vapor é grande demais para estas colunas mínimas; há muita coisa que dizer dele, mas não é este o lugar idôneo. Tinha que ver se eu entrasse a dar à preguiça dos leitores um caldo suculento de reflexões, observações e conclusões, acerca da boa amizade entre este país e os Estados Unidos! Que o digam vozes próprias e cabais. Mais depressa lhes falaria do fonógrafo [...]

 

Então ele de fato fala sobre o fonógrafo, mas retorna à linha de navegação a vapor, com as seguintes palavras:

 

Que os Estados Unidos começam de galantear-nos, é coisa fora de dúvida; correspondamos ao galanteio; flor por flor, olhadela por

http://machadodeassis.net/revista/numero11/rev_num11_artigo01.asp
Fundação Casa de Rui Barbosa – R. São Clemente, 134, Botafogo – 22260-000 – Rio de Janeiro, RJ, Brasil.
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  1. Rio, 15 abr. 1876. [In: Correspondência de Machado de Assis: tomo II, 1870-1889. Coordenação e orientação Sergio Paulo Rouanet; reunida, organizada e comentada por Irene Moutinho e Sílvia Eleutério. Rio de Janeiro: ABL, 2009, p. 120-121.]