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v. 6, n. 11, p. 01-13 junho 2013
Realmente, morreu daí a pouco, para nunca mais morrer. Que valem todas as expedições de Dongola e do Transvaal contra os combates de Ricardo III? Que vale a caixa egípcia ao pé dos três mil ducados de Shylock? O próprio Egito, ainda que os ingleses cheguem a possuí-lo, que pode valer ao pé do Egito da adorável Cleópatra? Terminaram as festas da alma humana.[1]
Machado de Assis não apenas admirava Shakespeare. Ele o copiava, o adaptava, o absorvia num tal grau que, como nós, o tinha no seu sangue. Provavelmente por essa razão, Machado de Assis fala mais diretamente a nosso espírito do que qualquer outro autor brasileiro. Nós também "falamos Shakespeare".
Por toda sua devoção, a língua inglesa, como outras coisas que ele amava, não escapou ao sarcasmo de Machado.
Desde criança, ouço dizer que aos condenados à morte cumprem-se os últimos desejos. Dá-se-lhes doce de coco, lebre, tripas, um cálice de Tokay, qualquer coisa que eles peçam. Nunca indaguei se isto era exato ou não, e já agora ficaria aborrecido se o não fosse. [...]
Li até, que um condenado à morte, perguntando-se-lhe, na manhã do dia da execução, o que queria, respondeu que queria aprender inglês. Há de ser invenção; mas achei o desejo verossímil, não só pelo motivo aparente de dilatar a execução, mas ainda por outro mais sutil e profundo. A língua inglesa é tão universal, tem penetrado de tal modo em todas as partes deste mundo, que provavelmente é a língua do outro mundo. O réu não queria entrar estrangeiro no reino dos mortos."[2]
Machado não era um devoto incondicional do inglês. Pela nação, especialmente, que tinha prejudicado o Brasil, ele não tinha grandes amores. Mas os americanos eram outra questão. Ele tinha paciência até mesmo com os nossos políticos. Homenageou nossos nomes sagrados, como John Brown e George Washington. Celebrou o aniversário da nossa independência. Tolerou nossos missionários metodistas e os defendeu.
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