Página:Nosso primo americano, Machado de Assis.pdf/2
v. 6, n. 11, p. 01-13 junho 2013
interpretações que contrariam a versão que os narradores, especialmente Dom Casmurro, oferecem dos fatos vividos por eles.
Entretanto, antes de publicar seu estudo sobre Dom Casmurro, Helen Caldwell tivera longa convivência com a obra de Machado de Assis. Ela fez a primeira tradução de Dom Casmurro para o inglês, de 1953, fato importante para a divulgação da obra de Machado de Assis no mundo anglófono e, a partir daí, para o crescente reconhecimento internacional da obra machadiana em circuitos acadêmicos e intelectualizados fora do Brasil.
O primeiro registro do interesse de Caldwell por Machado de Assis, interesse cuja origem e motivo ainda não conhecemos, está em comunicação apresentada no International Colloquium of Luso-Brazilian Studies, realizado em Washington, EUA, de 15 a 20 de outubro de 1950. Naquela ocasião, a professora e pesquisadora apresentou um documento no qual sugere a tomada de várias ações em relação à obra de Machado de Assis, entre elas a recuperação de obras perdidas, a publicação de notas e anotações do escritor e a reprodução de suas obras em microfilme ou outro processo, de modo a torná-la acessível aos pesquisadores.
"Our American cousin, Machado de Assis", artigo que traduzimos e reproduzimos aqui, é muito provavelmente o primeiro ensaio de Caldwell sobre o escritor. Esse ensaio escapou até mesmo das pesquisas minuciosas de Galante de Sousa, que não o inclui no seu Fontes para o estudo de Machado de Assis. O texto de Caldwell foi originalmente publicado em inglês pela Modern Language Forum (v. XXXVII, Sep.-Dec. 1952), com uma nota de rodapé na qual há a informação de que foi traduzido de comunicação apresentada por Caldwell na Seção Portuguesa da Modern Language Association of Southern California em outubro de 1951. O artigo indica que já naquela altura da década de 1950 Helen Caldwell estava bastante familiarizada com a língua portuguesa e com a obra do escritor, o que se depreende da desenvoltura com que se move por ela, por meio das várias citações que faz a romances, contos, crônicas e cartas.
Já nesse ensaio compara Machado a Shakespeare, ideia que retomará e desenvolverá com mais ênfase em The Brazilian Othello of Machado de Assis, e também vê em Machado uma chave para a compreensão do Brasil. A questão da pertença e do alcance da obra do escritor aparece já nas primeiras linhas — "em sua grandeza, pertence não só ao Brasil, mas ao mundo" — e reaparece no fecho do texto: "Para nós, norte-americanos, sua obra é um verdadeiro abre-te-sésamo para a imensa e variada riqueza do Brasil."
A obra machadiana é reiteradamente referida como continente do "Brazilian treasure" [tesouro brasileiro], ideia que está na origem da imagem que abre The Brazilian Othello, no qual Machado é descrito como "um verdadeiro Kohinoor". Trata-se de referência ao famoso diamante indiano, pertencente a várias gerações de governantes do oriente e que foi tomado pela Coroa Britânica no século 19, tornando-se parte das joias da coroa quando a rainha Vitória foi proclamada Imperatriz da Índia, em 1877.
O interesse de Helen Caldwell por Machado de Assis, documentado agora a partir do início dos anos 50, se estende até pelo menos 1984, quando publicou a tradução de Helena, três anos antes de sua morte, aos 83 anos, em 1987. Nessas quatro décadas, traduziu e publicou duas coletâneas de contos, The psychiatrist and other stories e What went on the baroness (ambos de 1963), os romances Esaú e Jacó (1965), Memorial de Aires (1972) e Helena (1984), e escreveu outro livro de crítica, The Brazilian Master and his Novels (1970), um estudo sobre o conjunto dos romances.
Surpreendente e intrigante em Helen Caldwell é o fato de ter traduzido as obras de Machado de Assis e escrito sobre elas em paralelo à sua carreira como professora de estudos clássicos na Universidade da Califórnia, em Los Angeles (UCLA), onde ingressou em 1942, tendo se aposentado em 1970. Nesses 28 anos, ensinou grego e latim na UCLA, sem jamais ter atuado num departamento de Espanhol e Português. Entre seus livros, apenas um faz alguma referência à literatura clássica: Ancient Poets՚ Guide to UCLA Gardens, de 1968, um guia para o extraordinário jardim de esculturas do campus da Universidade da Califórnia em Los Angeles.
O ecletismo e a fidelidade a algumas paixões parece ter sido uma marca dessa norte-americana nascida em Omaha, Nebraska, que se mudou com a família para a Califórnia em 1917. Na juventude, trabalhou para a indústria cinematográfica e estudou dança com o coreógrafo japonês Michio Ito, figura de sua adoração, sobre quem escreveu e publicou um
Fundação Casa de Rui Barbosa – R. São Clemente, 134, Botafogo – 22260-000 – Rio de Janeiro, RJ, Brasil.