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v. 6, n. 11, p. 01-13 junho 2013
Este, filósofo e filólogo, tinha junto a si, no tapete, encostado no pé da cadeira, um exemplar do dicionário de Morais. Era comum vê-lo consultar um e outro tomo, no correr de um debate [...][1]
[...] para verificar se tais palavras de um orador eram ou não legítimas; era um varão instruído e lhano.[2]
Embora possa parecer que as obras de Machado de Assis estão repletas de professores e alguma outra coisa mais, não é esse o caso. As obras de Machado de Assis contêm toda a espécie humana: políticos, médicos, advogados, escravos, padres, ladrões, ricos e pobres, felizes e desgraçados — todos humanos, todos brasileiros.
Machado de Assis nasceu, viveu e morreu no Rio de Janeiro. Em torno dele, a cidade cresceu de uma população de menos de duzentos mil para quase um milhão. Na capital ele viu o Brasil se transformar de um império numa república, atravessando dificuldades políticas e econômicas, com guerras contra o Paraguai, Uruguai e Argentina. Conheceu os antigos aristocratas escravocratas, escravos à venda no mercado do Valongo. Viu os mercados de escravos desaparecerem, os escravos serem libertados, o entusiasmo no Senado, a resistência dos proprietários de terras. Sua imaginação perscrutou o passado, o velho Brasil português do qual vieram essas mudanças. Suas crônicas jornalísticas comentam esses eventos. E as grandes forças transformadoras do Brasil sutilmente tomam seus personagens, afetando suas emoções, suas mentalidades e suas vontades.
O cenário da ação de todos romances de Machado é a cidade do Rio de Janeiro. Com a exceção de onze "Fantasias", todos os seus contos se passam na cidade e arredores. A grande e variada multidão formada por seus personagens é composta de brasileiros, com não mais que meia dúzia de estrangeiros no conjunto.
Para nós, norte-americanos, sua obra é um verdadeiro abre-te-sésamo para a imensa e variada riqueza do Brasil. Tudo o que é necessário (como o próprio Machado dizia) é ler com atenção.[3]Fundação Casa de Rui Barbosa – R. São Clemente, 134, Botafogo – 22260-000 – Rio de Janeiro, RJ, Brasil.
- ↑ "O velho Senado". Páginas recolhidas. [ASSIS, Machado de. Páginas recolhidas. Rio de Janeiro: Jackson, p. 166.]
- ↑ Semana II (11 ago. 1895). [ASSIS, Machado de. A Semana 2º volume (1894-1895). Rio de Janeiro: Jackson, p. 447.]
- ↑ Esaú e Jacó, cap. V. [ASSIS, Machado de. Esaú e Jacó. Edição preparada e anotada por Hélio Guimarães. São Paulo: Penguin Companhia das Letras, 2012.]