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v. 6, n. 11, p. 01-13 junho 2013
Os futuros linguistas deste país, percorrendo os dicionários igualmente futuros, lerão o termo bisnaga, com a definição própria: uma impertinência de água de cheiro (ou de outra), que esguichavam sobre o pescoço dos transeuntes em dias de Carnaval.
— Bom! dirão os linguistas. Temos notícia do que era a bisnaga. Mas por que esse nome? Donde vem ele? Quem o trouxe?
Neste ponto dividir-se-ão os linguistas.
Uns dirão que a palavra é persa, outros sânscrita, outros groenlandesa. Não faltará quem a vá buscar na Turquia; alguns a acharão em Apuleio ou Salomão.
Um dirá: Não, meus colegas; nada disso; a palavra é nossa e só nossa. É nada menos que uma corrupção de charamela, mudado o cha em bis e o ramela em naga.[1]
Mas a etimologia para terminar com todas as etimologias é aquela para a palavra medicina:
A etimologia de medicina é, como aconteceu com outras palavras, uma lenda.
Conta-se que no tempo do rei Numa, o corpo médico era composto unicamente de coveiros, regidos por um coveiro-mor, chamado Cina, avô, dizem, da tragédia de Corneille.
Adoecia um romano (eterno romano!), iam os coveiros à casa do doente medir-lhe o corpo para abrir a sepultura.
— Mediste, Caio? perguntava o chefe.
— Medi, Cina, respondia o coveiro oficial.
Daí, etc.[2]
Vamos completar a filologia de Machado, e dos seus professores, com o famoso professor e autor de gramáticas brasileiro, Hilário Ribeiro, cujo retrato Machado de Assis nos deixou em duas lembranças dele em discursos ouvidos no Senado nacional:
Fundação Casa de Rui Barbosa – R. São Clemente, 134, Botafogo – 22260-000 – Rio de Janeiro, RJ, Brasil.