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Machado de Assis em linha, Rio de Janeiro.
v. 6, n. 11, p. 01-13 junho 2013

rosas, "um ninho de amor". Mesmo nessa reclusão, tinham muitos amigos: entre eles, dois que eram particularmente queridos, um velho letrado e um rapaz da Babilônia:

 

Desde longos anos que este [o velho letrado] compunha um livro sobre as origens do Nilo; e, conquanto ninguém o tivesse lido, a opinião geral é que era admirável. Fa-Nohr [o faraó] quis ter a glória de ouvir-lhe algum trecho; o letrado levou-o à casa dele, um dia, aos primeiros raios do sol. Abria o livro por uma longa dissertação sobre a origem da terra e do céu; depois vinha outra sobre a origem das estações e dos ventos; outra sobre a origem dos ritos, dos oráculos e do sacerdócio. No fim de três horas, pararam, comeram alguma coisa e entraram na segunda parte, que tratava da origem da vida e da morte, matéria de tanta ponderação, que não acabou mais, porque a noite os tomou em meio. Fa-Nohr levantou-se desesperado.

— Amanhã continuaremos — disse o letrado —, acabada esta parte, trato logo da origem dos homens, da origem dos reinos, da origem do Egito, da origem dos faraós, da minha própria origem, da origem das origens, e entramos na matéria particular do livro, que são as origens do Nilo, antecedendo-as, porém, das origens de todos os rios do universo. Mas que lhe parece o que li?[1]

 

Vocês adivinharam! Durante aquela primeira leitura, Charmion fugiu com o jovem da Babilônia e levou com ela a caixa de pedras preciosas. O pobre ex-faraó, para ganhar a vida, teve de arranjar um emprego de embalsamador, fazendo múmias.

Pode-se pensar que o estilo ab ovo seja uma invenção egípcia; mas não é. Machado de Assis emprega o mesmo estilo em Um cão de lata ao rabo, história de um mestre-escola brasileiro; e ele o descreve amorosamente na crítica de um de seus contemporâneos, o Dr. Capelli, que fez um discurso na Câmara Municipal do Rio de Janeiro sobre o assunto "remédios para a prostituição pública".

Como se pode facilmente imaginar, a retórica incomodava Machado de Assis. E ele ria das teorias filológicas, especialmente das etimologias, tão caras aos corações dos professores de letras. Às vezes ele mesmo compunha suas próprias etimologias, como a seguinte, que apareceu numa crônica de 1877:

http://machadodeassis.net/revista/numero11/rev_num11_artigo01.asp
Fundação Casa de Rui Barbosa – R. São Clemente, 134, Botafogo – 22260-000 – Rio de Janeiro, RJ, Brasil.
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  1. [ASSIS, Machado de. Identidade. In: ______. Obra completa, em quatro volumes: v. 3. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2008, p. 264.]