Página:No seio da Virgem Mãe (1922).djvu/21

Esta página foi revisada, mas ainda precisa ser validada
17

picaz, reparara nas suas vastas leituras nas freqüentes reminiscências da ideia versada na quadra popular relativa ao acto da transmissão da vida. Por isso sobressaltou-o a minha Nótula (150), impressa na Saudade Portuguesa, quando a leu em 1918.

Ignorando os artigos publicados posteriormente na Lusa, teve a gentileza de me expôr numa carta extensa as suas observações, que vou resumir aqui.

A forma da quadra popular, como corre no Brasil (parte-norte), é a seguinte:

No ventre da Virgem-mãe
incarnou divina graça:
entrou e saiu por ela
como o sol pela vidraça.

Além do trecho de Fernan Caballero ( — que é o meu N.° 4) aponta um passo de um poema religioso moderno — do tempo do Romanticismo, o Volberg de Jean Siméon Pécontal ([1]). Transcreve-o:

5)Il naitra sur un lit de chaume,
et celle qui l’aura porté,
ce roy du céleste royaume,
gardera sa virginité,
car à travers sa chaste mère
passera l’enfant radieux.

E conta que Barbey-d’Aurévilly sublinhou os últimos dois versos como trait raphaélesque.

Quanto a estados anteriores da delicadíssima imagem da luz e da vidraça — anteriores aos tex-

  1. Paris, 1831 (segundo Larousse). O letrado brasileiro leu-o no Journal des débats de 1838.