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aos seus empregados, do projecto de desenvolver certas industrias e de crear certos estabelecimentos importantes.
— Bons desejos não me faltam! Affirmava elle a rir immodestamente.
E, como se achasse alli em um meio relativamente acanhado, em pertigava como nunca a cabeça, remettia para a frente a barriga e com o pollegar levantáva pretenciosamente a golla condecorada de sua casava.
— Vai-se fazendo pela vida! Vai-se fazendo Repisava elle, sempre com o mesmo riso. Deram cinco horas, e o noivo nada de apparecer.
— É de mais! Exclamou a madrinha, que afinal perdera a paciencia, e abrira a fallar abertamente contra aquella demora grosseira e imperdoavel.
Os animos foram-se a pouco e pouco sobresaltando. Havia já no commendador um risinho velhaco de má fé, e a noiva, sem querer salir da alcova, sentio avultar-lhe na garganta um novello estranho, que a suffocava.
A madrinha expedira secretamente um portador á casa do noivo. O portador voltára, declarando que o Sr. Gregorio ha cousa de uma hora, saliira para a casa da noiva em companhia de um liomem velho e de boa apparencia que o fôra buscar. E declarou mais que na porta da rua estava um cocheiro, que viera da casa do Sr. Gregorio, com a recommendação de esperal-o ahi.
Ninguem mais se animou a dar palavra, á excepção da madrinha, que nunca perdia occasião de fallar mal dos homens.
— Todos elles lêm pela mesma cartilha considerou ella, tregeitando um ar desdenhoso — Bem fiz em nunca tomar a serio semelhante gente! Nada! Antes só do que mal acompanhada! Prefiro ficar solteira toda a vida!
— Descance, D. Josephina, que ninguem a contrariará! respondeu um sujeitinho magro e activo, que parecia muito empenhado no bom exito do casamento.
N’isto foram interrompidos pelo padrinho do noivo, o Dr. Roberto, que vinha da egreja, farto, como os outros que lá estavam, de esperar pelos desposados.
— Pois si elle ainda nem appareceu por cá!... exclamou a madrinha, vermelha de colera.
— Não veio?! Gregorio não appareceu ainda?! Disse o doutor muito admirado. — É impossivel!
— Pois é a pura verdade!
— Ter-lhe-ia succedido alguma cousa Estará elle doente?!
— Si está doente não sei, gritou a terrivel madrinha — em casa é que lhe afianço que não está, porque agora mesmo mandei lá saber!
— Mas coino então se explica tudo isto? Eu ás tres e meia estive com Gregorio, e disse-me elle que se ia preparar para o casamento.
E o doutor depois de reflectir um instante, tomou o chapéo e salio, com a intenção de procurar o amigo.
D’ahi a pouco todas as pessoas, que esperavam pelos noivos na egreja, invadiram a casa de D. Januaria, e se começou então a tratar francamente do escandalo.
Clorinda desfez-se do véo e da grinalda, pedio á mãe adoptiva que fechasse a porta da alcova, e depois atirou-se-lhe nos braços e desatou a chorar desorientadamente.