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MYSTERIO DA TIJUCA

nho vergado de existencia e deformado pela vellice, provocara outr’ora desejos desenfreados e acendera em mais de um peito paixões tempestuosas.

Triste viagem é a da vida, que termina sempre por um naufragio ou da qual ainda ninguem sahio sem levar a mastreação partida, o pharol apagado, e as vélas estaçalhadas pelos terriveis vendavaes, que se encontram no caminho.

Um por um, vamos deixando esparsos pelas correntes revoltosas da existencia todos os dotes com que nos amarain, e todos os bens com que iamos avassallando os corações alheios. E ao cabo da viagem, sem dentes, sem cabellos, sem brilho nos olhos, com a pelle encarquilhada e as pernas tropegas, ficamos a esperar o tumulo, esquecidos e despresados no mundo, como o casco inutil do navio que naufragou na costa e vai aos poucos despindo as cavernas e mostrando a quitha.

O contraste entre as duas mulleres que estavam na alcova — uma tão fresca e bella, outra tão fraca e decrepita, levavam o espirito áquellas considerações.

As duas quedaram-se a scismar por algum tempo; a vellia embebida a olhar para o passado; a moça a sonhar-se nas felicidades futuras.

Estavam entre dous grandes nadas — o passado, que já não existe e o futuro, que ainda não existio.—

E como dous viajantes que se encontram no mesmo porto, um a partir, outro a voltar, as duas sorriam; mas o sorriso da que ia era todo de esperanças, emquanto que o da outra só transpirava desillusão e cansaço.

— Porque está tão triste, mãisinhia? Perguntou a moça, tomando as. mãos da velha.

— Nem eu sei... respondeu esta, procurando desfarçar o constrangimento. — Talvez seja nervoso, mas sinto alguma cousa no coração, alguma cousa que me opprime!

— Não se deixe levar pelos presentimentos!... Lembre-se que hoje é o dia do meu casamento.

— É por isso mesmo... E accrescentou, mudando de tom: É verdade! E o noivo, já teria chegado?

A mucama entrou na alcova para dizer que ainda não.

Esta demora ia sendo já commentada na sala de jantar pela madrinha de Clorinda e algumas amigas de D. Januaria.

— Não fôra bonito da parte do noivo fazer-se esperar d’aquelle modo! Eram já quatro horas da tarde e o casamento estava marcado para as cinco!...

Parou uma carruagem á porta, e quasi todos correram a ver quem chegava.

— Deve ser elle, considerou a madrinha, armando um sorriso. Mas teve logo de desarmal-o, vendo entrar o commendador Portella, velhio amigo da casa.

O commendador chegou apressado, a pedir mil perdões pela demora. — Temia chegar tarde, mas um maldito negocio, sim, um negocio de alta importancia exigira a sua presença.

E, segundo o seu costume, poz-se logo a fallar de si, de suas grandes preoccupações commerciaes, do dinheiro que tinha n’aquelle momento arriscado em varias transacções perigosissimas, e, afinal, da prosperidade de sua casa, do bom trato que dava