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MYSTERIO DA TIJUCA
ROMANCE ORIGINAL

I

O RAPTO

Clorinda acabava de vestir-se para o casamento e, de costas para um enorme espelho, olhava por sobre o hombro a cauda de seu vestido.

A velha Januaria prégava-lhe com inuita solicitude o ultimo alfinete dourado e, como representasse para a noiva o papel de mãe, repetia-lhe baixinho, com a voz commovida e os oculos embaçados pelas lagrimas, os invariaveis conselhos, que é de longo costume se dar n’essas occasiões.

Aos pés de Clorinda, ajoelhada no chão, uma mucama arranjava-lhe cuidadosamente a barra do vestido, compunha e ordenava os folhos e desfazia e ageitava as prégas do setim.

E a noiva, toda enlevada na ceremonia d’aquella roupa, sorria sem saber de que e sentía enrubecerem-seThe as faces por uma delicada previsão de seu pudor.

Estava linda com o seu trajar todo branco, o seu longo véo de filó, que Ihe envolvia o busto gracioso, deixando todavia perceber o doce relevo da cabeça, engrinaldada de pallidas flôres de larangeira.

Tinha os olhos azues, muito transparentes, a tez de uma brancura immaculada, os cabellos entre louro e castanho, os dentes adoraveis e a bocca um mimo cor de rosa. Terminado o vestuario, a mucama sahio da alcova para saber se o noivo já tinha chegado. E a velhinha, a sós com a pupilla, cruzou as mãos na cintura e ficou a olhar para ella, longamente, com a expressão carinhosa de quem se revê n’um filho.

Ah! a pobre Januaria tambem fôra noiva no seu tempo! Aquelle corpi-