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Entretanto, Gregorio, o causador inconsciente de todo aquelle desgosto, acabava n’essa occasião de ser carregado, sem sentidos, por dous lacaios de libré escura, para uma sala de bella apparencia, na Tijuca.
Acompanhava-o um homem de uns cincoenta annos, alto, magro, barha inteira dividida no queixo, ar distineto, reservado, maneiras extremamente delicadas. Vestia todo de preto e tinha luvas côr de cinza.
Ao chegarem á sala, o homem magro disse aos lacaios que depuzessem Gregorio sobre um divan, e ordenou que um d’elles fosse chamar a condessa.
Appareceu então uma senhora já velha, summamente sympathica, aspecto fino e bem educado.
— Eil-o! Disse o cavalliciro á condessa, apontando para Gregorio, que, irreprehensivelmente vestido de casaca, continuava prostrado no divan. Os lacaios afastaram-se discretamente.
— Ah! Exclamou ella, correndo para o desfallecido — estou agora mais tranquilla!
E ajoellando-se ao lado do divan em que estava o moço, tomou as mãos d’este e ficou a observar-lhe a physionomia.
Gregorio era uma bella figura de vinte e tres annos. Fuições puras, bem conformado de corpo e um todo singularmente meigo e bondoso.
O somno dava-lhe á pliysionomia uma tal suavidade, que o fazia parecer ainda mais moço do que era.
A condessa, depois de contemplal-o por algum tempo, com muita ternura, passou-lie a mão pelos cabellos e beijou-o na fronte.
— Veja, conde, disse ella ao homem vestido de preto — como elle é formoso!
— É o retrato da pobre Cecilia! respondeu aquelle com um ar pensativo.
E depois de uma pausa:
— Onde o devemos accommodar?
— Na sala amarella, disse a condessa, erguendo-se.
— O que me sobresalta um pouco é este somno. Não vá fazer-lhe mal.
— Póde ficar tranquilla, condessa, não lhe succederá mal algum. E se houvesse alguma novidade, bem sabe que o nosso medico é homem de confianca.
Gregorio foi conduzido para a sala amarella e só voltou á si ás 10 horas da noite.
II
EM CASA DO CONDE
Ao acordar olhou espantado em torno de si. Todos os objectos que o cercavam punham-lhe nos sentidos, ainda estonteados pelo somno, um estranho sabor de constrangimento e sobresalto.
E sem consciencia do logar em que estava, percorria demoradamente a vista pelas vellas tapeçarias suspensas da parede, pelos varios quadros, symetricamente dispostos nos intervallos das portas, e pelos inoveis luxuosos, guarnecidos de metal amarello, que pousavam elegantemente sobre a felpa macia do tapete e scintilavam á luz mordente do gaz.
Seus ollos syndicavam de tudo aquillo com a insistencia do juiz que interroga as testemunhas de um crime, mas nada correspondia ao inquerito, a excepção de um vellio relogio de bronze, que, de um dos an-