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II

Rei Ramiro, rei Ramiro,
Rei de muito mau pezar,
Ruins fadas te fadaram,
Má sina te foram dar.
Do que tens não fazer conta,
O que não tens cubiçar..!
Zahara, a flor de teus cuidados,
Ja te não dá que pensar.
A rainha, que era tua,
Que não soubeste guardar,
Agora morto de zelos
Do moiro a queres cobrar.
Oh!.. que barcos são aquelles
Doiro acima a navegar?
A noite escura cerrada,
E elles mansinho a remar…
Cozeram-se com a terra,
Lá se foram incostar;
Entre os ramos dos salgueiros
Mal se podem divisar.
Um homem saltou em terra:
Onde irá n'aquelle andar?
Leva bordão e esclavina,
Nas contas vai a rezar.