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XXIV

Uma mulher

 

Nunca havia pensado no casamento, visto que me considerava incapaz de ser um bom marido por causa da minha grande independencia de caracter e decidida paixão pelas aventuras. Ter mulher e filhos parecia humanamente impossivel ao homem que consagrou a sua vida a um principio de que o successo, por mais completo que seja, não póde deixar nunca o socego necessario a um chefe de familia. O destino havia decidido o contrario: depois da morte de Luiz, Eduardo e dos meus outros amigos, achava-me n’um isolamento completo, parecendo-me existir só no mundo.

Não me havia ficado um só d’esses amigos de que o coração tem necessidade como a vida de alimento. Os que tinham escapado, eram como já disse, estrangeiros. Eram sem duvida dotados de um excellente coração, mas conhecia-os á pouco tempo para ter com elles grande intimidade. N’esse espaço enorme que aquella terrivel catastrophe tinha feito em volta de mim, sentia a necessidade d’uma alma que me amasse, porque sem essa alma, a existencia era-me insuportavel, quasi impossivel. Havia, é verdade, encontrado Rossetti, isto é, um irmão; mas Rossetti obrigado pelos deveres do seu emprego não podia viver comigo, vendo-o apenas uma vez por semana. Tinha pois necessidade d’alguem que me amasse. A amisade é fructo do tempo, e é por isso necessario muitos annos para amadurecer, em quanto que o amor é como o relampago, filho muitas vezes da tempestade. Mas que importava! Não sou eu dos que preferem as tempestades á bonança e socego d’alma.

Era pois uma mulher que se me tornava necessaria, só uma mulher me podia curar, uma mulher quer diser, o unico refugio, um anjo consolador, a